Pais de crianças com condições de risco de vida precisam tomar decisões todos os dias e isso é muito difícil. Entre essas decisões está a possibilidade de falar com os filhos sobre a doença grave com prognóstico paliativo e a morte.

O que os pais não sabem é que as crianças geralmente sabem mais do que eles pensam sobre a morte. Elas não sabem tudo e às vezes não entendem, mas eles sabem que a morte pode separá-los.

A primeira coisa que os pais devem fazer é avaliar se os seus filhos sabem algo a respeito do assunto. É muito importante ser honesto e criar uma atmosfera de conforto e abertura para fazer as perguntas necessárias e ouvir o que as crianças tenham a dizer. Se uma criança estiver com uma doença terminal, por exemplo, e se a criança perguntar ” Vou morrer?” Talvez ela não queira ouvir “todos vamos morrer”. Na verdade essa é uma boa abertura para falar sobre a condição dela, porque pela pergunta que ela fez, ela mostra que sabe que a condição dela não é fácil e que será difícil vencer a doença. Por mais aterrorizante que seja para os pais, as crianças são fortes e podem ouvir o necessário para sua idade. Uma criança de 10 anos pode ouvir, que ” Estamos fazendo de tudo para que você continue conosco por mais tempo”, já para uma criança de 5 anos talvez seja, melhor devolver a pergunta para ela, para saber como ela se sente no momento, assim os pais podem saber se a criança estará preparada para ouvir “sim”.

O que podemos dizer é quando dizer vai depender de suas idades e experiências.

Tive uma experiência uma vez no consultório ao atender um jovem com câncer no pulmão. Esse jovem tinha 17 anos e ele em si entendia bem que sua condição física poderia levá-lo a morte, mas ele tinha como grande aliada a esperança e optou por acreditar nela e ser feliz com as pequenas coisas que poderia realizar.

Alguns pais preocupados ficam com dúvidas sobre se devem ou não contar. Contar é sempre a forma mais difícil, mas sem dúvida, a mais honesta. Crianças gostam da verdade e estão preparadas para ouvir, até porque elas já lidam com a morte. Elas veem aves mortas, insetos e animais. Elas também podem ver programas de TV, filmes e novelas e até desenhos em que alguns personagens morrem. A doença e a morte é uma parte da vida, e as crianças em seus níveis de maturidade estão cientes disso. Muitos pais estão inclinados a não falar sobre as coisas que incomodam, mas não falando não significa que não estão se comunicando. As crianças são ótimas observadoras: elas leem mensagem em nossa testa. Reparam tudo! Desde a forma que seguramos suas mãos até a maneira como andamos. E quando não contamos, as crianças ao sentirem nossas mensagem também vão hesitar em trazer o assunto, isso pode deixar o ambiente ainda mais pesado e cheio de dúvidas, a criança pode elabora o pensamento de que ” se papai e mamãe não podem falar sobre isso é porque realmente é algo ruim”, a partir deste ponto ela pode começar a sentir medo

Por outro lado, também é importante que que as informações sejam realmente de acordo com a idade da criança. Cada idade e maturidade vai determinar as informações que podem ser reveladas. Como acontece com cada assunto sensível, devemos buscar equilíbrio que incentive as crianças a falar sobre suas dúvidas e medos. Esse equilíbrio deve envolver: desejo de se comunicar, honestidade nas respostas, aceitação dos sentimentos, não deixar perguntas nem respostas para depois, respostas breves e simples e apropriadas para as perguntas.

Acredito que o mais difícil de tudo isso é como os pais vão deixar transparecer seus sentimentos e crenças para que possam falar com eles o mais natural possível quando surgem as oportunidades.

– O que evitar falar? Ao falar com as crianças, muitos pais se sentem desconfortáveis se não têm todas as respostas. Mas a morte é a única certeza que temos na vida. Podemos chegar a respostas diferentes em diferentes fases da vida. Podemos também em fases diferentes sentir medo e incertezas. Mas Não há nada do que não se posso falar, embora nem todas as respostas possam ser reconfortantes, podemos, pelo menos, compartilhar o que realmente acreditamos.

– Como falar? Geralmente é mais fácil falar sobre a morte quando estamos menos envolvido, logo é desde cedo e antes de que qualquer doença apareça é que devemos falar sobre o assunto, sem torná-la um tabu nos lares. Os pais devem tomar a oportunidade para falar com as crianças sobre flores mortas, árvores, insetos, pássaros e inclusive contar histórias dos seus antepassados. Assim caso algum membro da família seja acometido por uma doenças que pode levar à morte, a criança poderá entender sua condição e permitir um diálogo aberto sobre o que acontece com ela ou qualquer membro da família.

É bom lembrar que falar sobre algo muito difícil com crianças precisará de entendimento sobre sua idade e maturidade sobre o assunto.

Veja algumas dicas do que sabem sobre a morte por faixa etária:

2 anos de idade: Irá sentir uma perda – vai sentir os que os pais sentirem. Pode mudar o comportamento como ter problemas para comer, dormir, manter os hábitos de higiene.

2 – 6 anos: A família é o centro do mundo da criança, confia que sua família irá cuidado dela família.  No entendimento do tempo ou da morte, não pode imaginar a vida sem mãe ou pai. Nessa idade pensa que as pessoas falecidas continuam fazendo as coisas (comer, beber, ir ao banheiro), mas apenas no céu.

6-9 anos: começa a ver a morte como final, mas fora do reino da mente realista da criança – não consegue aceitar que morte vai acontecer com eles – nem a ninguém (embora começa a suspeitar que ele vai). Desenvolve um interesse nas causas de morte (violência, velhice, doença).

9-12 anos: Pode ver a morte como castigo por mau comportamento – Desenvolve moralidade, forte senso de bom e mau comportamento. Começa um interesse em fatores biológicos de morte – teoriza: Pessoas morrem para dar lugar a novas pessoas – Solicita mais sobre “o que aconteceu” – Preocupações sobre ritual, enterrando – Perguntas mudanças de relacionamento causados pela morte, a vida muda – Preocupações sobre quem fornece e cuida deles – podem regredir a um estágio anterior – Interessado em aspectos espirituais da morte.

Adolescentes: veem a morte como inevitável, universal e irreversível. As habilidades cognitivas já desenvolvidas os fazem pensar como um adulto – Perguntam sobre sentido da vida. Veem a morte como um inimigo natural. Há nessa fase uma necessidade de orientação de adultos (processo de luto, habilidades de enfrentamento). Precisam de alguém para ouvir; para falar. Podem sentir-se culpados, com raiva. Quase sempre não sabem como lidar com suas emoções.

Leave a Comment